segunda-feira, 18 de julho de 2011

do Pará a Alagoas (parte 3/6)

...continuação
Consegui embarcar somente no meio do dia, cruzando paisagens de mais chapadas em ambos os lados. No sul do Piauí rodavam dezenas de carros, motos, ônibus, caminhonetes, caminhões, sem placa ou com a extinta placa amarela. Nenhum motoqueiro ou carona usava capacete. Ônibus clandestinos circulavam lotados, em direção ao sudeste do Brasil. Após várias paradas em cidadezinhas do vale do Gurguéia, desci na rodoviária de Canto do Buriti no final da tarde. A melhor opção para São Raimundo Nonato partiria somente na manhã seguinte. Peguei carona no próprio ônibus até o hotel na saída da cidade.
Boa churrascaria se localizava a cinquenta metros do hotel. Fui bem atendido pelos piauienses, com quem conversei sobre as culturas de caju e melão da região, sobre as saborosas cajuínas. Mandei ver prato generoso de carne de sol, arroz, feijão tropeiro, salada, duas caipirinhas, duas cajuínas, duas águas. Finalmente, quarenta e oito horas depois, eu consegui comer comida de verdade. E como caiu bem!
Encerrei a noite. Cama e muito sono.
Perdi o café da manhã. O vigia da noite me deu carona de moto, sem capacete novamente, até a rodoviária, onde teria que esperar o ônibus da mesma linha que não peguei em Gilbués pelo inconveniente do horário. O ônibus custou a ultrapassar os buracos e mais buracos da rodovia. Desembarquei em São Raimundo Nonato e imediatamente comprei passagem para Caracol. Nem acreditei que aguardaria apenas uma hora e meia, contrastando com as esperas anteriores de horas e horas, noites em hotéis e tudo mais. Comi lanches e suco de goiaba na própria rodoviária, construção recém-inaugurada, novíssima, tinindo, porém sem água nos banheiros e lanchonete.

Após viagem calma, desci na praça central da pequena Caracol no meio da tarde. Entrei na pousada administrada pelo casal idoso. Maravilhoso era o terraço na frente, sombreado à tarde, ideal para encontrar outros hóspedes, o próprio casal, vizinhos que por ali passavam, entre conversas animadas sobre assuntos diversos. E eu estava à cerca de cinquenta quilômetros de Guaribas, a cidade brasileira de pior índice de desenvolvimento humano segundo o IBGE.
Jantei galinha caipira, arroz, feijão preto, salada, farofa. Caiu bem depois de um dia sem café da manhã e almoço dignos do nome. Para encerrar a noite, mais papos descontraídos nas cadeiras da calçada em frente à pousada. Do outro lado da rua, no meio da praça, rolava a missa na pequena Matriz de Caracol.
Comi bem e bastante no café da manhã. Estava pronto para encarar a Serra das Confusões, de moto e a pé, conforme conversa prévia na tarde anterior.
Lá fomos eu e o motoqueiro, com comes e um litro e meio de água, explorar a parte sul do parque nacional de mais de quinhentos mil hectares. Foram vinte quilômetros até a primeira guarita, já dentro dos limites do parque nacional. Dali, caminhamos pela trilha do Sobrado, do alto da qual tinha visão panorâmica da Serra das Confusões, das formações rochosas arredondadas pelo tempo, vales, escarpas e da caatinga a perder de vista. A vegetação oferecia suculentos e saborosos umbus pegados no próprio pé.
Tomamos a estrada principal do parque, ainda usada pelos moradores de povoado distante, pelo menos enquanto não se abria rota alternativa por fora da área de preservação. A estradinha impressionou profundamente nos trechos de descida da serra. Trabalhadores braçais escavaram a rocha na década de 1930, a mando da paróquia de São Raimundo Nonato, a fim de obter acesso ao vale do Gurguéia. O leito sobre a rocha maciça exibia paredões verticais, artificiais, obra de milhares de braços humanos, depois de muitos golpes de picaretas. Fizemos toda a descida da serra a pé, em condições de apreciar aquela obra absurda e fascinante. Entramos no desvio e atingimos o fundo da garganta estreita, por onde costumava fluir águas pluviais.
Do leito do Riacho dos Bois acessamos a gruta de mesmo nome. Árvores de mais de trinta metros de altura, espessas, copadas, evidenciavam redutos de floresta tropical, mantidas graças a gotejamentos constantes de água infiltrada nos paredões de arenito. Caminhamos pelo leito do riacho seco em ambiente úmido, fresco, estreito, escuro, em função dos paredões se fecharem acima. Bandos de andorinhas faziam gritaria e defecavam sem parar. Tivemos que nos esgueirar pelo paredão oposto para não ser atingido pelo bombardeio. Seguimos até onde a segurança permitiu e retornamos ouvindo o som da água pingando aqui e ali. Enxames de abelhas e riscos de desmoronamentos nos obrigaram a evitar ruídos. As eventuais aberturas dos paredões acima garantiam iluminação necessária e efeitos luminosos sensacionais.

Refizemos a pé toda a subida da serra naquele momento mais quente do dia, com claridade excessiva refletindo da rocha. Parecia que a cabeça iria explodir de tanto sol, pelo calor, pela claridade, pela sede. De volta à guarita, detonamos toda a água e descansamos sob a sombra entre papos com o segurança do turno.
No meio da tarde estava de volta a Caracol, satisfeitíssimo pelo dia bem aproveitado. Corri para o restaurante mais próximo a fim de forrar o bucho e recuperar as energias. Senti dificuldades de obter veículo com tração nas quatro rodas para explorar os locais mais distantes da Serra das Confusões, inclusive os sítios arqueológicos.
Caminhei pelas ruas da singela Caracol rumo ao serrote chapado, no topo do qual se erguia o cruzeiro. Por trilhas, não foi difícil atingir o patamar superior e andar até a ponta com a enorme cruz de madeira sustentada por cabos de aço. Sentei-me nos degraus da pedra para observar a cidadezinha lá embaixo, os paredões da rocha que afloravam da vegetação, o sertão no sentido da Serra das Confusões. Ventava bastante. Liberei a mente diante do belo cenário. Na descida desviei a rota e voltei por parte da estrada que vinha de Guaribas. Encontrei pequeno açude de águas sujas de onde moradores do bairro retiravam água em vasilhames e baldes, mas apenas para banhos e faxinas. A água potável vinha da chuva e era recolhida em cisternas individuais construídas pelo governo federal em parceria com movimentos sociais.
Apenas eu, dentre os hóspedes, pedia o café da manhã opcional. Os demais engoliam uma xícara de café sempre disponível na garrafa térmica sobre a mesa da copa, e olhe lá. Eu comia todos os pães, fatias de queijo, manteiga, tapiocas, ovos fritos ou mexidos. Detonava a jarra de suco, o cuscuz, o café, o leite. Tudo. Não deixava pedra sobre pedra.
Peguei a estradinha no sentido dos distritos próximos a Lagoinha. Tudo muito verde, em pequenas propriedades, algumas cultivadas ou em fase de preparo para o plantio. Região tipicamente rural com vários e pequenos agrupamentos de casas simples, mas sem miséria ostensiva. Não seria possível imaginar cenas de penúria, tal a oferta de terra fértil, estações chuvosas definidas, pequenas propriedades, possibilidade de cultura de grãos, verduras, frutas, criação de gado, porcos, galinhas, ovinos. Os moradores e passantes me acenavam com alegria espontânea.
Entrei no restaurante ao lado do que costumava comer em Caracol. Os dois irmãos proprietários comentaram o desgosto de ficar no meio de fogo cruzado das correntes políticas da cidade, a favor ou contra o prefeito. Os proprietários de ambos os restaurantes e também os moradores da cidade estigmatizavam que um dos estabelecimentos era contra e o outro a favor da administração vigente. Quem frequentava um bar não entrava no outro. Os clientes de um antipatizavam com os clientes do outro. O mesmo acontecia com os respectivos proprietários. O clima esquentava nos momentos de maior tensão política. Ou apoiava uma corrente ou apoiava outra, provocando cisão social, pessoal, afetiva. A disputa não se concentrava em projetos econômicos, sociais, culturais, administrativos, para a população, mas apenas em joguetes da pior espécie. A classe dominante local, independente da facção no governo municipal, sempre ganhava. A maioria pobre e miserável, qualquer que fosse a corrente vencedora, sempre ficaria mais pobre e ignorada. Uma miniatura da situação geral do Brasil.

Refrescou bem à noite na calçada em frente ao hotel, entre papos agradáveis.         
O filho caçula do casal proprietário da pousada caíra nas garras do comercio da fé. E, como legítimo fundamentalista, era coagido a cooptar mais e mais trouxas para aumentar a fortuna dos donos das empresas evangélicas. Vira e mexe se sentava na frente da pousada, ao lado de todos, hóspedes e amigos do casal idoso, que queriam conversar e trocar informações sobre a vida. E nessas horas o servo dizia de maneira sonsa: “vamos ouvir umas músicas boas”. Ligava o aparelho celular e descarregava o lixo, em ritmo de forró, rock, axé, samba, sertanejo, tudo com aquelas letras para embrutecer corações e mentes, alienadas e alienantes, repetindo refrões a todo instante sobre a adoração a Je$u$$. Diante daquilo, tinha quem permanecia sentado, disfarçando e continuando a conversa normal. Outros se levantavam e escapavam da armadilha.
Tirei o dia de folga. Nada de longas caminhadas debaixo do sol de torrar a cuca. Apenas voltas leves com o morador que me passou informações históricas da cidade e da família. Ele fabricava vassouras a partir de garrafas pet, reciclando-as, evitando o acúmulo de lixo plástico. Enquanto isso, mais ovelhas dóceis do comercio evangélico da fé batiam de porta em porta, entregando panfletos, tentando arrebanhar mais trouxas para a escravidão fundamentalista.
Tomei banho frio para me refrescar e acordar de vez. Ainda deu tempo para um pedaço de bolo seco e suco de goiaba em lanchonete, pois não poderia esperar o substancioso café da manhã da pousada. O ônibus logo apareceu e pouco depois me hospedava na cidade de São Raimundo Nonato.
Aproveitei o período da tarde para visitar o Museu do Homem Americano. O calor superava, e muito, o de Caracol, assim como a quantidade e agressividade das muriçocas. Comprei várias garrafas da deliciosa cajuína disponível nos supermercados. Acertei com o guia e motoqueiro os dias de passeio a Serra da Capivara, a preço bem salgado, a despeito de eu pechinchar.
Consegui jantar bem em churrascaria em frente à avenida. As calçadas, o canteiro, o interior das dezenas de bares, restaurantes, pastelarias, lanchonetes, enchiam de mesas. Desfilavam nas ruas caminhonetes de cabines duplas, aqueles monstrengos de ostentação. De todas escarrava o lixo comercial de sempre em alto volume.
Bem cedo pela manhã, o guia apareceu com a moto e dois capacetes. Estávamos prontos para explorar o circuito Serra Branca, o mais distante da cidade dentro da Serra da Capivara.
Logo no início da estrada asfaltada, com a moto a setenta quilômetros por hora, senti uma pontada acima da barriga e imaginei ter sido uma pedra. Mas a queimação, o ardor, a dor mesmo, cresceu, parecendo que não pararia de aumentar. Só podia ter sido uma abelha ou marimbondo que, por cima da camiseta, fez todo o estrago. E como ardeu, como doeu, como queimou! Ainda em movimento, eu esfregava a mão na região dolorida, sobretudo na camiseta, para esmagar o que quer que fosse, e me livrar de mais complicações. Por pouco não gritei e pedi para o motoqueiro parar no acostamento. Doeu e ardeu durante todo o dia.
Após o registro na portaria do parque nacional começamos a exploração propriamente dita. A maioria dos sítios arqueológicos se localizava distante uns dos outros e próximos às estradinhas de acesso, mas compensaram e muito o sofrimento na garupa da moto. Em diferentes estados de conservação, as pinturas rupestres encantaram pela qualidade, conteúdo narrativo, grafismo puro. Através delas pude analisar cenas do cotidiano das populações que habitaram a região há no mínimo cem mil anos. Esta idade fora obtida a partir de novas datações, comprovadas internacionalmente, de fogueiras, instrumentos de trabalho, ossadas e das próprias pinturas. Destaque para a pintura “Conflito” no alto da serra, acessada através de subida extenuante com o auxílio de cordas e sob o sol do meio-dia. Nela se via nitidamente homens em combate com lanças. Em outros, homens, mulheres e animais isolados, cenas de festa, guerra, sexo, caça, rituais, apareciam nos paredões inclinados das tocas naturais sob os morros e serras.

O sol e o calor castigavam sem tirar a empolgação de estar diante de tantos documentos históricos. Garrafas grandes de água congelada, envoltas em tecido grosso para evitar maiores perdas de temperatura garantiram a sobrevivência dos dois, somadas a castanhas, barras de cereais e frutas secas.
No caminho de volta, paramos no Baixão das Andorinhas, uma garganta extensa e profunda, com escarpas rochosas penetrando na mata densa. Do alto, além da vista deslumbrante, assistimos ao espetáculo das andorinhas no fim da tarde. As aves mergulhavam em velocidade estonteante rumo às grutas das cabeceiras do vale para o repouso noturno.
Na estrada de volta, eu sentia as pancadas dos mosquitos e besouros, como se fossem pedrinhas, se chocando contra o capacete. Já era noite quando entrei no hotel.
Optei por restaurante bem melhor que o da noite anterior, na qualidade da comida, atendimento, preço, frequência. Durante o jantar, servido em pátio ao ar livre e sob o céu estrelado, onde se espalhavam aleatoriamente dezenas de mesas, apareceu carro de som a fim de enviar mensagem de parabéns à aniversariante da mesa próxima à calçada. Além do som na retaguarda, o locutor leu mensagem escrita por uma das colegas da mesa. Mas lia muito devagar, gaguejava, voltava o texto e corrigia frases já lidas, em ato mal preparado, mas singelo e bem intencionado. A aniversariante adorou e agradeceu com beijos e abraços cada integrante da mesa.
Caminhei a esmo pelas ruas escuras dos arredores do centro de São Raimundo Nonato a fim de colaborar na digestão, antes de me afundar no quarto e dormir cedo.
continua...

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