terça-feira, 28 de junho de 2016

Guatemala e Honduras (parte 6/6)

...continuação
Em todos os lugares havia gente demais. Praças, corredores das arcadas laterais, dentro da Catedral, bares, cafés, restaurantes, ruas fechadas para veículos, calçadas. Muitos sentavam para descansar nas sarjetas ou nos desníveis das praças. E aquilo era apenas aperitivo para a semana santa, certamente impossível de se mover em meio a visitantes e romeiros da Guatemala e de países vizinhos que baixariam na cidade especialmente para acompanhar ou observar as manifestações de fé.
À noite, a praça e as ruas nas imediações da igreja La Merced permaneciam cheias. O povo não arredava pé. As barracas de comidas e bebidas fervilhavam de pedidos. Uns andavam, outros sentavam se encostando às paredes das casas, nas guias da calçada ou no adro da igreja. Haveria missas mais tarde.
No café da manhã fui de ovos mexidos, pasta de feijão preto, molho de tomate com nachos, queijo fresco, banana frita, uma fatia de pão, café com leite.
A lotação saiu de Antigua sob a visão privilegiada dos vulcões De Água, Acatenango e De Fuego, este mais calmo, mas ainda soltando fumaça pela cratera.
As estradas desceram o relevo em mais de mil e quinhentos metros, até o nível do mar. Cortaram zonas industriais, poluídas e feias. E, como regra na Guatemala, muito lixo jogado na beira das rodovias, transformando-as em lixões a céu aberto. O trajeto passou por Alotenango, Escuintla, Puerto Quetzal, Iztapa, antes de entrar na vila de Monterrico, na beira do oceano Pacífico.
Assim que a estrada atingiu o litoral, o aspecto geral de tudo lembrou demais trechos do litoral brasileiro. Construções mal feitas, pela metade ou sem acabamento. Falta de capricho no urbanismo e na arquitetura. Indiferença e descuido na aparência em geral. Os moradores, mestiços, usavam e abusavam da boa e velha descontração no vestir, andar, se comunicar. Homens e mulheres, jovens e adultos, me cumprimentavam sorrindo.
Balneário quase inteiramente voltado ao turismo, Monterrico contava com mar agitado e batido contra extensa praia de areias escuras devido aos vulcões próximos. Caminhei na praia inclinada próximo à linha d’água. Alguns pescadores se sentavam na sombra costurando ou remendando redes de pesca. Me sentei na sombra da murada lateral de um bar fechado. Descansei observando as ondas fortes do Pacífico e o movimento quase nulo de banhistas. As areias de coloração cinza-escura chamavam atenção, ainda mais em contraste com o azul do mar. Silêncio, preguiça, sol abrasador, calor úmido.
Atingi a rua paralela à praia, atrás da primeira fileira de construções, e voltei ao centrinho. Peguei a avenida transversal ao mar, ao longo da qual havia uma infinidade de bares e restaurantes, abertos e completamente vazios. Era hora do almoço e nada de clientes. Algumas lojinhas se intercalavam aos restaurantes, vendendo artigos de praia. Vazias também.
Troquei de calçada e dei meia volta. Avistei o único restaurante que acabara de se ocupar com trabalhadores a serviço na cidade. Entrei no ambiente naturalmente ventilado, sem paredes, chão de cimento batido. Local descontraído com atendimento para lá de informal.
Apesar do calor indecente, pedi caldo de peixe, camarão e caranguejo. O caldo e o gosto de tudo animou o espírito. A cestinha cheia de tortillas quentinhas e feitas na hora não poderia faltar. Fui com as mãos mesmo. Me lambuzei e não deixei nada sobre nada. Filetes de suor desciam pelo peito, costas, barriga, coxas. As garçonetes e a senhora gorda do caixa me assistiam disfarçando sorrisos. Me lavei na pia instalada no meio das mesas.
Repeti a praia. Permaneci sob a sombra de uma barraca de comes e bebes abandonada. Sol, calor, claridade intensa.
Ao final da tarde a lotação tomou o caminho de volta, serra acima. Canaviais e bananais sem fim, zonas portuárias de mau aspecto, pobreza às margens da rodovia.
Em determinado trecho de estrada passou enterro no sentido contrário. O caixão era carregado nas mãos, enquanto os familiares e amigos vinham caminhando logo atrás. Depois de todo o longo cortejo de pedestres, extensa fileira de carros e motos também seguia o féretro.
E encerrei a noite em Antigua.
A indústria da segurança armada, na maioria das vezes privada, se alimentava e lucrava com o pânico da criminalidade na Guatemala. Além dos bancos, comércios maiores, caminhões transportadores, estacionamentos comuns, qualquer local ou veículo que contivesse algo de valor ostentava seguranças escandalosamente armados na porta, junto à calçada, internamente, ou em movimento, ao carregar e descarregar. Muitos comércios se encontravam fortemente gradeados, como jaulas de zoológico. Era comum na beira das estradas placas com os dizeres “vizinhos organizados contra a delinquência”.
Mas não vi ou ouvi nada a respeito de ocorrências do tipo nas imediações por onde circulei em todo o país.
Permaneci sentado sobre a calçada coberta pelos arcos da praça Central. Observei o vaivém dos guatemaltecos e turistas. Os engravatados e as vestidas austeramente dos escritórios do centro em horário de almoço sentavam para pegar a fresca. Grupos de turistas passavam apressados com o guia à frente. Estudantes estrangeiros da língua espanhola davam voltas. Indígenas invariavelmente rechonchudas e com os filhos às costas tentavam vender bugigangas aos estrangeiros. Crianças vendiam guloseimas e cigarros ou passavam com a caixa de engraxate oferecendo serviços. Estudantes de uniforme, elas de camisa branca e saia listada e bem cortada, eles de roupas escuras e gravata. Pedintes, muitos pedintes. Gringos velhos, ora sentados, ora indo daqui para lá, fazendo ou pretendendo sei lá o quê.
Assim como Tiradentes e Parati, Antigua oferecia dezenas daqueles bares e restaurantes transadinhos, à meia luz, com música ambiente ou ao vivo. Destoavam acintosamente da cidade e do país. Na decoração, astral, música, cardápio, serviços, sobretudo nos preços. Os turistas adoravam. Frequentavam tais lugares com roupas escolhidas a dedo, desfilando poses ensaiadas e expressões de conteúdo. Nesses momentos não se sentiam e nem gostariam de se sentir na Guatemala real.
As redes de comida rápida, provenientes daquele regime terrorista ao norte do México, abundavam em Antigua. Estrangeiros, na maioria, se envenenavam diariamente com o lixo industrial, enquanto a diversificada e saborosa culinária guatemalteca era por eles ignorada.
Apesar de décadas da história recente da Guatemala terem se caracterizado por tragédias sociais, genocídios patrocinados pelas elites, ditaduras com ou sem eleições, invasões de exércitos estrangeiros, guerras civis, opressão e exploração das classes dominantes locais e estadunidenses, discriminação agressiva contra indígenas, entre tantas catástrofes sofridas, o povo guatemalteco se destacava pela simpatia, acolhimento, educação, boa vontade, sempre acompanhados de sorrisos. Essa docilidade talvez resvalasse na submissão a que eles, sobretudo a maioria pobre e miserável, têm sido submetidos desde séculos.
A praça Central de Antigua centralizava a vida de toda a cidade e, entre tantas características, concentrava fauna peculiar. Estadunidenses sessentões ou setentões perambulavam a pé, ou se sentavam nos bancos, todos os dias, durante praticamente o dia todo. Conversavam entre si em inglês. Adulavam, em espanhol, as indígenas vendedoras de quinquilharias turísticas. Circulavam para lá e para cá, sempre muito à vontade. Exageradamente à vontade. Aposentados que decidiram viver em Antigua? Egressos de planos de pacificação e domesticação do povo guatemalteco? Antigos soldados que participaram das invasões e golpes de Estado contra o povo da Guatemala? Integrantes de atividades comerciais duvidosas? Algo não combinava com uma suposta opção de vida ingênua durante a aposentadoria.
Missões de corporações evangélicas estrangeiras, quase sempre provenientes daquele regime estadunidense, circulavam impunemente pelas ruas da cidade. Duplinhas de mórmons. Grupos de jovens em cujas camisetas alardeavam programas odontológicos cristãos. Gringos disfarçados de ingênuos turistas. Todos pregando o fundamentalismo religioso, uma das armas para dobrar e abaixar ainda mais a cabeça do povo da Guatemala. Pelo jeito, o país continuava sendo quintal de experiências e fonte de lucros abusivos das grandes empresas estadunidenses, desde sempre, porém mais profundamente a partir da invasão e golpe de Estado de 1954.
Andei pela zona do mercado, labirinto de bancas cobertas vendendo de tudo um pouco. Placas alertando os delinquentes sobre o esquema de segurança armada apareciam em pontos visíveis. Policiais de uniforme preto, membros do exército carregando fuzis automáticos, entre outras delicadezas, desfilavam em pontos estratégicos.
A Guatemala começava a se despedir de mim. E eu dela. Deixaria saudades, certamente.
A lotação me pegou no início da manhã. Tudo correu bem nas estradas acidentadas e sinuosas. Na chegado ao subúrbio de Mixco, o congestionamento clássico da área metropolitana, entupida de carros, o infame transporte individual que polui o mundo todo. O motorista ainda tentou vias alternativas, virando aqui, dobrando ali, mas ganhou pouco. Cada avenida da Cidade da Guatemala estava paradíssima.
Mas, finalmente, entrei no saguão do aeroporto internacional La Aurora. Menos de quarenta e cinco quilômetros de percurso desde Antigua demorou mais de uma hora e meia.
O avião decolou e sobrevoou rota similar ao da ida. Destaque para vulcões em território provavelmente da Nicarágua. Um cuja cratera se enchia de água mansa, espelhada e escura. Outro, mais cônico e com encostas íngremes e raspadas pela descida de lavas, contava com a cratera expelindo cinzas e fumaça. Ilhas do lado do oceano Pacífico. Terreno seco e acastanhado, fartamente cultivado, nas ilhas e no continente.
Ao pousar no Panamá, áreas de manguezais, muitos navios no oceano, linha de arranha-céus na Cidade do Panamá, revelando ostentação e mau gosto, provavelmente imitação de congêneres daquele país ao norte do México, dono oficial do Panamá até o final do século XX.
Durante o segundo voo, o céu aberto me permitiu avistar as luzes de cidadezinhas e cidades do centro-oeste e sudeste brasileiro.
Desembarquei no meio da madrugada em São Paulo naquela segunda quinzena de março. Recusei os assaltos para comer alguma coisa no próprio aeroporto. E o metrô já começava a lotar de trabalhadores.
Depois do barato café da manhã na padaria do bairro, me deitei em casa para adormecer. Seguramente sonharia com as diversas e fascinantes facetas da Guatemala, todas elas ocupadas por povo sofrido, acolhedor, educado, sorridente.