sábado, 31 de março de 2018

O Vale do Amazonas e do Solimões (parte 9/9)

...continuação
Tomei o ônibus que, após cruzar a linha do equador e entrar no hemisfério norte, me deixou no centro de Macapá. Mas bem longe do hotel. Andei bastante, saltando os obstáculos das calçadas ou da falta delas.
Faminto e sedento coloquei o chapéu e, besuntado de protetor, caminhei na direção do rio Amazonas. Duro eram as calçadas, a descontinuidade delas, a ausência pura e simples delas. A caminhada se tornou verdadeiro salto de obstáculos. No trajeto, imóveis baixos, raríssimos edifícios altos, árvores e sombras eventuais. Me intrigaram as coberturas contra o sol sobre os túmulos do cemitério. Para os vivos, porém, a sombra era artigo raro.
Avistei ao fundo as águas barrentas do rio Amazonas, distantes da murada naquele horário. A maré baixa expunha extensa faixa de areia, indo além do longo e estreito trapiche e da estátua de São José, padroeiro da capital amapaense. Erguida na beira do rio, em formato pentagonal, impondo respeito pelas extensas dimensões horizontais, o forte de São José de Macapá se postava no trecho mais avançado nas águas, rodeado de gramados, árvores esparsas, ciclovias.
Mais ao sul, o cais de algumas linhas menores de barcos e lanchas, inclusive com destino à cidade suspensa de Afuá, situada no noroeste da ilha do Marajó, onde permaneci anos antes. Pelo ancoradouro, tudo seco, somente um barco estacionado sobre a areia. O final da tarde, horário em que a maré encheria, permitiria novamente a circulação fluvial e marítima. O restaurante onde tanto me esbaldei naqueles anos, em caldeiradas divinas, do outro lado da avenida do cais, não existia mais, substituído por dois hotéis envidraçados.
Após o almoço comprei um litro de açaí fresco, que matei em minutos dentro do quarto do hotel, sem açúcar mesmo, direto do furo no saco plástico que fiz com o canivete.
Jantei entre caipirinhas bem temperadas, picanha alta e ao ponto, acompanhamentos saborosos, porém, redundantes. Serviram arroz e baião-de-dois. Serviram farofa e farofa de ovo. Música ao vivo com os padrões da MPB, no formato voz e violão, em volume civilizado. Saí feliz e estufado, tanto que circulei pelas redondezas para facilitar a digestão e reduzir o inchaço.
O ônibus cruzou bairros e mais bairros de Santana e Macapá. Não notei miséria evidente, apenas a tradicional pobreza da maioria que contava com o mínimo para sobreviver. E valeu também para apreciar as atraentes macapaenses e santanenses.
Encarei a caminhada de volta ao hotel debaixo de sol absurdamente, escandalosamente, indecentemente, quente. Às vezes pensava que minha cabeça iria rachar ou que desmaiaria a qualquer momento. O sol da linha do equador era de impor respeito e temor.
No jantar experimentei bistrô em bairro que, a despeito do festival de horrores das calçadas, concentrava as camadas altas da sociedade macapaense. O pequeno estabelecimento lotou de galera branca, clara, de olhos verdes, vindo em carrões. Ninguém, absolutamente ninguém, indígena, mestiço, cafuzo, mulato, mameluco, caboclo. Descolei mesinha do lado de fora para evitar me contagiar daquilo.
Dei voltas pela região da avenida FAB, repleta de escolas. Estudantes lotavam calçadas e pontos de ônibus. No mais, bairro vazio, com comércio e vários bares fechados. Tudo estava na penumbra naquela noite do meio da semana. A avenida FAB leva esse nome por ter sido pista de pouso de aeronaves durante os primórdios da ocupação do homem branco, em que o Amapá era ainda território federal.
Visitei o marco Zero, a linha do equador, situado no bairro macapaense de Zerão. A atração oferecia o monumento suspenso, assinalando a linha do equador, marcos de concreto, e finalmente o obelisco bem alto, com listas verticais em verde e amarelo, mais o orifício circular no topo. Do lado oeste, o estádio Olímpico Zerão. A leste, a avenida Equatorial que levaria, bem adiante, à margem do Amazonas.
O trânsito de ambas as cidades amapaenses não era agressivo. Pedestres levantavam o braço e logo os veículos paravam para eles atravessarem. O gerente mineiro do hotel lamentava os altos preços praticados no Amapá, de imóveis, alimentos, combustíveis, serviços. Por outro lado estava gostando da terra e das pessoas, tanto que a esposa viria se instalar em breve.
No início da manhã eu já embarcava no navio, no porto do Grego, em Santana. Antes circulei pela região do porto, interessante ponto de comércio, bares, hotéis barra-pesada, puteiros.
Depois de apitar muito, e aguardar calmamente os retardatários, que corriam para embarcar cheios de bagagens, o navio partiu em meio às águas levemente agitadas do rio Amazonas, passando ao lado de navios cargueiros, tendo em terra, à esquerda, a praia da Fazendinha.
Conversei com o soldador, morador de Altamira, que se aventurara em garimpar pelo Amapá. Chegou a acumular oito gramas de ouro. Acabou por se desencantar. Partia para tentar nova vida em Imperatriz, no Maranhão. Descreveu a criminalidade insana na paraense Altamira após a invasão de todo o tipo de gente durante a construção da hidrelétrica de Belo Monte.
Ignorei a refeição paga à parte do preço da passagem. Comi o sanduíche de salame e queijo, mais duas bananas, trazidos do bufe do café da manhã do hotel em Macapá.
À medida que o navio se afastava do litoral amapaense, a cidade de Macapá surgia ao fundo, com a linha dos edifícios em destaque. Mais adiante, o estreito composto pela comunidade do Limão, ao longo do qual, da mesma forma que no também marajoara estreito de Breves, crianças, acompanhadas ou não das mães, se aproximavam em canoas. Aos gritos e abanando as mãos, pediam doações dos passageiros, alimentos, roupas, o que fosse. Alguns a bordo lançavam sacos plásticos recheados. Não por acaso, nas margens do estreito, empresas evangélicas escravizavam a mente dos moradores usando e abusando de balelas como “deus proverá”, “só cristo salva”. Mas quem provia mesmo, quem salvava mesmo, eram os passageiros dos navios e balsas que por ali trafegavam. O fundamentalismo servia para sequestrar mentes e bolsos dos pobres coitados.
Aproveitei as nuvens e me abandonei no piso de cima, dotado de mesas e cadeiras fixas, entre conversas com o soldador, enquanto apreciava a paisagem e as voadeiras que atracavam para vender camarão e açaí. De uma das voadeiras, pulou no navio uma adolescente de longos cabelos pretos e shortinho milimétrico, cheia de amor para dar aos eventuais interessados. Aningas abundavam nas margens dos canais indicando nos caules afinados o nível da maré alta. As nuvens engrossaram e escureceram. Ventou forte. A pancada de chuva expulsou todos dali. Cada um se refugiou na respectiva rede, suíte, ou na área coberta da lanchonete.
E o navio seguia em meio ao labirinto de águas e ilhas pertencentes ao arquipélago do Marajó. Local facílimo para se perder pelos canais, estreitos, água grande, curvas, retas. Nova pancada de chuva ao anoitecer, dessa vez precedida de raios e trovões, compondo visual impressionante de nuvens cor de chumbo, cobrindo as copas das árvores da floresta, se aproximando aos poucos do navio.
Algum movimento ali na lanchonete da popa. Na mesa do canto, as latinhas vazias de cerveja lotavam o espaço. Noutra, um casal em que ela me olhava de vez em quando. Em pé, três adolescentes sussurravam com expressões adultas. Duas mulheres do outro lado se mostravam disponíveis.
Entre ligeiras acordadas, dormi profundamente durante a noite. Nem ouvi as paradas previstas, em Curralinho e São Sebastião da Boa Vista, vilarejos do Marajó. O café da manhã, única refeição gratuita daquele trajeto, veio de melão, melancia, cuscuz, pão com queijo, café com leite, mingau. O navio percorria água grande, as margens muito distantes.
Estava demorando pra começar a tortura! Antes das 8h as caixas de som da lanchonete começaram a vomitar o lixo fundamentalista evangélico. Buscavam cooptar mais ovelhinhas para engordar o faturamento das empresas do ramo. Fornecer alimentação incluída no preço da passagem, como praxe na maioria das linhas fluviais de passageiros da Amazônia, nem pensar. O negócio era faturar para o comércio da fé.
O navio voltou a percorrer canais estreitos após visões das unidades de beneficiamento de bauxita. Passou ao lado de toda a cidade de Barcarena. E novamente trechos largos, cujas margens se afastavam a leste e a oeste.
E a linha dos edifícios altos de Belém apareceu no horizonte. Em seguida a embarcação perfilou o centro velho, a casa das Onze Janelas, o forte do Castelo, as igrejas, o mercado Ver-O-Peso, os casarões. Após me despedir dos passageiros chegados, desembarquei na Doca da capital paraense.
Depois de beliscar no entorno do mercado Ver-O-Peso, à noite deu vontade de comer bem. Escolhi a dedo o restaurante. Conversei com o garçom, com a recepcionista, ambos simples e, como eu, contrastando com a formalidade artificial do ambiente. Nas demais mesas ocupadas, a fina flor da elite belenense. Aniversariantes com direito a bolo, garçons mascarados e fantasiados coreografando e cantando o feliz aniversário, em ritmo de salsa. E cantando em inglês e espanhol, nadinha em português, a língua falada em Belém, inclusive pelos da mesa festeira. Os clientes próximos sorriam acanhados, não sabendo se era de bom tom se imiscuírem. As mesas livres se ocupavam aos poucos. As belenenses aterrissavam vestidas para matar, nem sempre com bom gosto ou discrição. A ideia era chamar a atenção, para o bem ou para o mal. Rostos entupidos de maquiagem, vestidos estrambólicos, provocantes, chamativos. Entre garfadas e goles, ouvi os garçons comunicarem que de outubro ao natal a casa e os garçons se decoravam para os festejos, envolvendo os clientes na atmosfera tocante. Saí de lá embriagado, com o estômago forrado, feliz da vida e com direito a contemplar a nata da cidade botando para quebrar.
Almocei em restaurante especializado em comidas paraenses. A comida vinha emoldurada com suposto refinamento, atendimento atencioso e, sobretudo, preços bem salgados, ainda mais se comparadas com a mesma comida servida na simpática região do mercado Ver-O-Peso. Mas valeu o filé de filhote grelhado, acompanhado de arroz com cenoura, farinha d’água, vinagrete e meio litro de açaí cremoso. Mesmo sem fome, comi tudo, principalmente o açaí, ingerido à paraense, sem açúcar, na base de colheradas entre as garfadas ao peixe.
No avião de volta para casa, mais leituras e cochilos.
O avião pousou no aeroporto internacional de Guarulhos. Ônibus comum, numa marginal Tietê surpreendentemente sem congestionamento, ao metrô Tatuapé. Entrei em casa em meados de agosto. O frio e a garoa me recepcionaram depois de dois meses afastado de São Paulo.